Biocombustível, oportunidade para o agronegócio brasileiro
O Programa Nacional de Biodiesel será grande aliado para avançar nas pesquisas. Por Clayton Campanhola

Agricultura energética desponta no cenário mundial como uma grande oportunidade para promover profundas mudanças no agronegócio brasileiro. É incontestável a necessidade de se buscar novas fontes de energia renovável, destacando como grande alternativa a energia proveniente da biornassa.
Em 2003, cerca de 85% da energia consumida no mundo foi proveniente de combustíveis fósseis, sendo que 80% disso por não mais que dez países ricos que respondem também por cerca de 80% da poluição atmosférica mundial.
Porém, países com alta densidade populacional e com dificuldades energéticas, como a Indonésia, a China e a índia, serão grandes importadores de energia. Por exemplo, em 2018, estima-se que a Índia necessitará de energia equivalente a sete bilhões de barris de petróleo anuais, importando um terço deste volume. Nos anos 90, a China foi exportadora de petróleo, em 2003 começou a importar petróleo e gás natural e em 2020, a probabilidade é de que 60% de seu óleo e 30% de seu gás natural sejam importados. O Japão já decidiu adicionar 3% de álcool na gasolina prevendo chegar a 10% em um prazo relativamente curto, o que significa consumir 6 bilhões de litros de álcool por ano, quase a metade da atual produção brasileira.
Aliadas a esses fatos, outras ações como a decisão da indústria automobilística em desenvolver o carro bicombustível (flex fuel), a necessidade dos países signatários em atenderem o Protocolo de Quioto e as previsões da diminuição das reservas dos combustíveis fósseis motivaram os produtores de álcool a apostar a curto prazo no aumento significativo do consumo de biocombustíveis no mercado interno e, a médio prazo, no mercado internacional.
Estudos baseados em programas de vários países permitiram projetar que a demanda potencial apenas do álcool para o ano de 2010 será de 38 bilhões de litros a mais do que os consumidos em 2000. As grandes questões são: como o Brasil irá se inserir neste cenário? Onde e como se produzirá este combustível renovável?
Um setor bastante desenvolvido no Brasil é o sucroalcooleiro, ampliado agora com as perspectivas de lançamento do biodiesel, formado através da mistura de etanol ao diesel de petróleo, com diversas pesquisas dos setores público e privado em andamento.
Neste caso, o Brasil, com capacidade atual instalada de produção de 16 bilhões de litros ano, possui hoje estrutura para atender a demanda de etanol e possui um imenso potencial para expandir a produção e a produtividade desta cultura.
A novidade também é que, além do álcool, diversos óleos vegetais de importância regional têm despontado com excelentes fontes para produção de biocombustíveis, especialmente para o óleo diesel vegetal. Somente para a mamona, existe urna área de mais de 3 miLhões de hectares aptas para seu cultivo, grande parte deles no semi-árido nordestino. No norte, o dendê pode ser a grande opção, onde existem mais de 50 milhões de hectares de áreas desmatadas com aptidão para o seu plantio. A soja, o girassol e o algodão despontam como as principais alternativas para o centro- sul. Nos cerrados, é possível expandir a produção pela integração agricultura-pastagem.
Além do aspecto econômico e ambiental, a agricultura de energia pode também se tornar uma grande alternativa para a agricultura familiar gerando emprego e renda para esse segmento. Destaca-se a possibilidade de se aumentar significativa- mente o plantio de oleaginosas; a implantação do processo de produção do óleo diesel vegetal em comunidades organizadas; o processamento e utilização da torta para alimentação humana e de animais, com grande agregação de valor etc.
O Programa Nacional de Biodiesel, a ser lançado pelo governo federal, será um grande aliado para avançar mais rapidamente nas pesquisas voltadas para defmir, por exemplo, as melhores proporções das misturas, a redução dos custos, as melhorias no processo produtivo e o aproveitamento de resíduos.
A Embrapa, em colaboração com diversas instituições parceiras, tem muito a contribuir na pesquisa, em várias áreas do conhecimento científico: estudos agronômicos (avaliação de culturas, potencial genético, maneio de culturas, zoneamento); estudos na área química, engenharia química, engenharia mecânica e engenharia ambiental (catalisadores, padronização, aproveitamento de resíduos); melhorias dos processos de extração (custo, balanço energético) e estudos econômicos deviabilidade e impactos sócioeconõmicos.
Por outro lado, o setor produtivo e o governo deverão se preocupar com a intensificação em pesquisa e desenvolvimento na produção primária e no processamento, com a quantificação da demanda do mercado interno e externo, com a avaliação da capacidade de produção de oleaginosas no país, com o incentivo ao extrativismo sustentável de espécies de palmáceas nativas, com o incentivo ao cultivo de oleaginosas perenes com domínio tecnológico (ex. dendê); com os estudos de cenários em função da introdução do biodiesel na matriz energética brasileira (estudos dos efeitos cio aumento da oferta de óleo diesel vegetal e conseqüentes subprodutos nos segmentos da cadeia produtiva das oleaginosas). Enfim, há um campo enorme de estudos pela frente.

Fonte: Jornal o Valor.
Clayton Campanhola é diretor- presidente da Embrapa.