Aço
Usiminas entrega 83% no mercado interno e Belgo-Mineira teve de remanejar exportação

Siderúrgicas operam no limite e já começam a recusar novos pedidos
Ivo Ribeiro e Francisco Góes De São Paulo e do Rio

 

 

A procura por aço entre os principais consumidores da indústria continua firme no segundo semestre e já mostra sinais de dificuldades no suprimento. "Estamos recusando pedidos", informa Rinaldo Campos Soares, presidente da Usiminas. Segundo o executivo, a empresa está com 83% da vendas colocadas no mercado interno. "Chegamos ao nosso limite", afirma.

A siderúrgica mineira, que está operando à plena capacidade e não tem mais como ampliar as linhas de produção, tradicionalmente destina 80% do material fabricado para o Brasil e exporta 20%. Em 2003, chegou a 21%. Este ano, deve ficar em 17%. A Usiminas dispõe de capacidade para 4 milhões de toneladas de produtos acabados na usina de Ipatinga.

A maior demanda vem dos setores exportadores, puxados pela indústria automotiva, e os clientes ligados ao agronegócios, como as fábricas de máquinas e implementos agrícolas, de caminhões e de vagões. Outro mercado bem aquecido é o de linha branca (geladeiras, fogões e máquinas de lavar).

A construção civil começa um movimento de recuperação, diz Carlos Loureiro, presidente da Rio Negro, distribuidora paulista de aço. A construção naval também dá sinais de retomada no país. O maior mercado está na Ásia, onde há falta de chapa grossa para fabricar navios e outras embarcações.

Usiminas e Cosipa são os únicos fabricantes nacionais de chapa grossa. "Sempre que a economia entra em período de expansão, esse produto, voltado para obras de infra-estrutura e bens de capital, vê sua demanda se recuperar rapidamente", explica André Zinn, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), que responde por um terço do aço comercializado no país. Segundo Zinn, chapa grossa e laminado a quente são os dois produtos com nível de estoque mais crítico.

Fontes do setor ouvidas pelo Valor dizem que não há falta de aço para atender a procura. A questão é preço. "Se os clientes pagarem os preços que as usinas querem, não vai faltar aço", disse uma fonte. A forte demanda da China por aço mantém as cotações elevadas no mercado internacional. A bobina a quente, por exemplo, tem preço de exportação acima de US$ 500 por tonelada, enquanto no mercado doméstico o preço oscila entre US$ 410 e US$ 460. Isso significa que para vender no mercado doméstico, é preciso sacrificar margens. Mesmo assim, as usinas dizem que o Brasil é sua prioridade.

As siderúrgicas atendem clientes tradicionais, mas não conseguem responder a demanda de novos consumidores. Pedidos adicionais, mesmo de clientes de longo prazo, também podem não ser atendidos. Uma alternativa é o remanejamento de exportações para mercado interno.

A Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira redirecionou parte da exportação para atender ao aumento da demanda interna no primeiro semestre, informa Ibrahim Abrahão Chaim, diretor comercial. A Belgo fechou o primeiro semestre com crescimento de cerca de 20% nas vendas internas, comparado com igual período de 2003. O desempenho superou as expectativas da companhia, pois no fim do ano passado a previsão era de aumento de 8% até junho de 2004.

Segundo Chaim, a retomada da demanda levou a Belgo a rever seus planos de exportação. Foi a forma de atender a clientela, já que a empresa opera no limite, utilizando de 90% a 95% de sua capacidade de produção.

No primeiro semestre, a Belgo exportou cerca de 400 mil toneladas, 10% a menos do que o previsto no fim de 2003. Entre os produtos que foram redirecionados para o mercado interno estão barras e fio-máquina, usados como matéria-prima pela indústria de transformação. Ao desviar parte das exportações para o país, a Belgo reduziu a rentabilidade em linhas de produtos mais nobres, como aços para produção de molas e aços especiais, cujas cotações externas superam US$ 100 por tonelada os preços praticados no Brasil.

"A margem de flexibilização de vendas de exportações para o mercado interno é grande", diz Marco Polo de Melo Lopes, vice-presidente-executivo do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS). Hoje, o IBS faz um balanço do desempenho do setor até junho.

"Hoje o mercado interno está plenamente abastecido e o consumidor dispõe de condição privilegiada em termos de oferta e preços", diz Lopes. Para ele, "a siderurgia não está engargalada". "Há condições de atender os mercados interno e externo; só precisam de previsibilidade nas encomendas."

Para 2004, a Belgo projeta aumento de 20% a 25% nas vendas no país sobre 2003, com 2 milhões de toneladas. As exportações devem cair 10% - no ano passado foram 900 mil toneladas. A previsão de alta de venda interna considera o remanejamento de exportação e o crescimento de 10% a 12% na produção da siderúrgica. Sua usina de Piracicaba (SP) duplicou a capacidade, para 1 milhão de toneladas ao ano de vergalhão. Vai atingir a plena produção no fim do ano.

A área de aços longos comuns do grupo Gerdau, que opera oito usinas no país, está produzindo com 15% de aumento este ano - vai passar de 3,5 milhões de toneladas em 2003 para 4 milhões em 2004, informou Domingos Somma, vice-presidente executivo para essa ramo de negócios. "Estamos a plena capacidade." Com isso, está conseguindo atender demanda interna e o nível de exportação do ano passado, que chegou a 30%. No país, deve entregar 3,8 milhões de toneladas - 300 mil a mais que em 2003. Para o exterior, a previsão é embarcar 1,2 milhão de toneladas.

A área industrial, principalmente à ligada ao agronegócio, vem crescendo todo mês, disse Somma. São máquinas agrícolas, equipamentos para silos, colheitadeiras, aço para reformas de usinas de açúcar e para enfardamento de algodão, arames, soldas para eletrodos etc. os segmentos voltados à exportação, como celulose e automotivo, são também fortes compradores.

Na construção civil, diz, há retomada da auto-construção, que começa a comprar mais vergalhões, pregos e impulsiona demais bens da cadeia construtiva, como o cimento. As obras de infra-estrutura, como portos, estradas e hidrelétricas, estão totalmente paradas.

Uma das vantagens das usinas de aços longos, geralmente de porte bem menor que as usinas integradas de aços planos, é a flexibilidade de remanejamento do fluxo de produção para mercado interno e exportações. Somma diz que consegue replanejar em um mês, conforme a demanda. "Hoje, não temos dificuldades para atender pedidos para setembro", afirma. As siderúrgicas de planos operam com programas trimestrais.

O aumento da produção nas usinas sob sua responsabilidade levou à contratação de cerca de 800 pessoas em 2004. Isso significou ampliação de 10% no quadro de pessoal, que era de 8 mil funcionários no fim de 2003. "Colocamos novos turnos de trabalho nas usinas e em algumas completamos linhas de produção."

Fonte: Jornal o Valor.