Mais de 10 dias depois do
anúncio pelo Ministério da Agricultura do surgimento de um foco de febre aftosa no Pará, o governo brasileiro não
conseguiu resolver o impasse criado pela reação dos dois principais importadores de produtos agrícolas do Brasil, Argentina e Rússia, que decidiram suspender a
importação de carne brasileira.
O prolongamento de urna situação que parecia à primeira vista um simples problema de comunicação inadequada estimula o debate sobre a postura de Brasília no relacionamento com os países eleitos como parceiros
preferenciais do Brasil. Até agora, o discurso das autoridades encarregadas das negociações com russos e argentinos pode ser considerado abaixo do tom adequadojá que concretamente não haveria razão para o banimento da carne brasileira. Para representantes do setor de agronegócios, o governo brasiléiro demorou em reagir ao embargo da carne adotado por Rússia e Argentina assim como tardou em adotaras medidas cabíveis quando a China colocou restrições à entrada da soja do BrasiL
O problema com a exportação de carne —um item importante no comércio brasileiro,já que as vendas ao exterior atingiram US$866 milhões no período dejaneiro a maio deste ano, com uma alta de 62,5% em relação a 2003 —começou com o anúncio do aparecimento de um foco de febre aftosa no município de Monte Alegre, no noroeste do Parâ. Era o primeiro caso da doença no Brasil depois de quase 34 meses sem registro de nenhuma ocorréncia.A doença surgiu em uma região considerada de “alto risco para a febre aftosà” e de “baixo risco de difusão”, segundo nota técnica do Departamento de Defesa Animal do Ministério da Agricultura.
Os técnicos governamentais chegaram a informar, no último dia 17, quando foi feito o anúncio sobre o novo foco de aftosa, que a doença em animais da região não iria afetar as exportações de carne bovina brasileira,já que a região noroeste do Pará não faz parte da área reconhecida iuternacionalinente como livre da doença. Além disso, o Estado não fornece carne para exportação. A região de Monte Alegre fica na margem esquerda do Rio Amazonas, a 700 quilômetros do limite da atual zona livre com reconhecimento
internacional. A doença foi identificada em
três animais de um rebanho de 130 cabeças. O problema foi informado à Organização Internacional de Saúde AnimaL Mas, não foi feita nenhuma comunicação especial para os maiores compradores de carne brasileira, como Rússia e Argentina.
Contrariando o otimismo governamental de que as exportações não seriam afetadas, já no dia seguinte, a Rússia anunciava que estava suspendendo suas compras de carne do Brasil até obter melhores infonnações sobre o problema com a febre aftosa. Depois da Rússia, foi a vez da Argentina. O vizinho do Mercosul decidiu, na última quarta-feira, fechar temporariamente seu mercado para as carnes suma e bovina provenientes do Brasil. Apesar de a região onde foi encontrado o foco no Brasil não ser exportadora de carnes, a Argentina — terceiro mercado para a carne suína brasileira — decidiu proibir a entrada no país de animais suscetíveis à doença e de seus derivados. No caso russo, pode se compreender o embargo, já que se alegou que havia poucas informações sobre a localização precisa do foco de aftosa.Já a decisão de Buenos Aires seria menosjustiflcável, porque governo e importadores argentinos conhecem bem as condições do agronegócio brasileiro.
Desde o início do atual problema com exportações agrícolas, que se sobrepôs à crise do embargo na importação de soja pelos chineses, houve um desfile de representantes do governo brasileiro garantindo que a questão seria rapidamente resolvida. Na quarta-feira, em Nova York, onde acompanhou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma série de eventos com investidores estrangeiros, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, disse, por exemplo, que esperava urna liberação rápida das importações argentinas de carne brasileira depois que o país recebesse a documentação sobre o caso de aftosa no Pará.
O embargo já afeta o faturamento das empresas catarineuses que exportam suínos e frangos para a Rússia e Argentina. A expectativa é de queda este mês, enquanto os estoques sobem Os preços se mantêm, poisas vendas domésticas estão aquecidas. O embargo russo à carne suína significa para os exportadores catarinenses queda no faturamento em US$1,23 milhão ao dia. No caso da suspensão argentina, o prejuízo é uma redução no faturamento das empresas em US$245 mil ao dia.
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo.