Combustíveis
Parceria com a estatal deve dar fôlego aos projetos de exportação de álcool da nova trading

Acordo à vista entre Ethanol e Petrobras
Mônica Scaramuzzo De São Paulo

 
 
Foto: Marisa Cauduro/Valor
Para Gianetti, haverá investimentos em destilarias para atender à demanda  

A Ethanol Trading deve fechar parceria com a Transpetro, subsidiária da Petrobras, no mês de agosto, quando finalmente ela própria deve ser criada oficialmente. A trading é formada por um pool de usinas de açúcar e álcool do país e nasce com o objetivo de ser o maior grupo exportador de álcool do Brasil. "Esta é uma parceria firme, que se complementa de forma extremamente sintonizada", disse ao Valor Roberto Gianetti da Fonseca, presidente da nova trading.

 

Esse acordo operacional, segundo Gianetti, vai viabilizar as exportações de álcool, sobretudo do tipo combustível, considerando que a Transpetro tem toda a infra-estrutura logística para o transporte de álcool por meio de dutos e tancagem nos principais portos do país. "Para os importadores, a parceria com a Petrobras dá uma maior segurança no negócio", afirmou Gianetti.

O programa de exportação da Ethanol Trading está em linha com os projetos da Transpetro para o setor sucroalcooleiro, informou Marcelino Guedes Gomes, gerente-geral de desenvolvimento de negócios da subsidiária da Petrobras. "Temos conversado com todos os segmentos desse setor porque esta é uma área de forte interesse da Petrobras", disse, sem detalhar uma possível parceria com a trading.

Em recente entrevista a este jornal, a Petrobras informou que investirá R$ 200 milhões em quatro anos para o escoamento de álcool, com a construção de dutos para o transporte do combustível desde a Replan (Refinaria de Paulínia), em São Paulo, até o terminal de Ilha D'Água, no Rio, e também o aumento da capacidade de tancagem de álcool dos atuais terminais da companhia em todo o Brasil.

Conforme Gianetti, a criação da nova trading recebeu parecer positivo da Camex (Câmara de Comércio Exterior), que recomendou sua aprovação ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) sob o argumento de que não se caracterizaria uma concentração da venda de álcool no mercado interno. O projeto está em análise no Cade, mas, para uma fonte do órgão, não deverá enfrentar resistência.

A expectativa da Ethanol Trading, em seu primeiro ano de operação, é de negociar a exportação de 500 milhões a 1 bilhão de litros de álcool, afirmou Gianetti. "A parceria com a Transpetro seria inviável, se os volumes negociados pela Ethanol Trading ficassem abaixo de 70 milhões de litros mensais", disse o executivo. As usinas de álcool do país devem exportar nesta safra, a 2004/05, até 1,6 bilhão de litros.

A Ethanol Trading acredita que não terá problemas em atingir a sua meta de exportação, uma vez que conta com a adesão de grandes grupos de álcool no pool, o que representa a concentração de quase 80% das usinas produtoras de todo o país.

A maior demanda por álcool no mercado internacional, com a a utilização do produto também como combustível em outros países, como já tem ocorrido nos Estados Unidos, deverá impulsionar os negócios nos próximos anos. Gianetti calculou que até 2010 o Brasil deverá aumentar a produção em mais 10 bilhões de litros de álcool. A produção atual das usinas brasileiras está em torno de 14,5 bilhões de litros, com uma capacidade instalada de até 18 bilhões de litros.

Segundo o economista, as usinas terão de se preparar para aumentar a capacidade instalada de produção em, no mínimo, mais 6 bilhões de litros até 2010. Isso significa um investimento adicional de US$ 3 bilhões para a construção de novas destilarias para comportar esse aumento de produção, de acordo com estimativa de Antônio de Pádua Rodrigues, diretor da União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (Unica). O aumento da demanda internacional, contudo, está condicionado à aceleração dos programas de álcool dos países importadores.

Com quase 30 anos de experiência em gestão de tradings, Gianetti teve sua primeira incursão no álcool no final dos anos 70 e início da década de 80, quando esteve à frente da Cotia Trading. À época, a Cotia Trading iniciava as primeiras exportações de álcool combustível do país. Também quando esteve à frente da Camex, entre março de 2000 e junho de 2002, Gianetti, atual presidente da Silex Trading, voltou a ter contato com o álcool por conta das várias missões internacionais interessadas no produto brasileiro. "A minha experiência com álcool no passado talvez tenha dado maior segurança aos empresários ao me chamarem para coordenar a Ethanol Trading."

 

Fonte: Jornal o Valor.