UE propõe menos proteção para açúcar
Assis Moreira
De Genebra
A Comissão
EuropEia revelou ontem um drástico plano para reformar o setor de açúcar da
União Européia (UE), recebido com revolta por produtores locais e com esperança
e ressalvas por países exportadores que não pertencem ao bloco, incluindo o
Brasil. O plano prevê redução de 83% das exportações subsidiadas européias,
corte de produção, queda de preços minimos e fim do mecanismo de compra de
excedentes de açúcar, num ataque frontal a uma industria com peso de US$
7 bilhões e habituada a uma forte proteção.
Para a Comissão e para a industria açucareira européia, o Brasil será um dos
principais beneficiários da reforma proposta, já que poderá ampliar suas
exportações em pelo menos 2 milhões de toneladas anuais, ampliando seu doru
mnio no mercado mundial. OBrasiljá é responsável por 28% das exportações
globais de açúcar; em 1989/90, a participação era de 4%.
“A reforma faz desaparecer o argumento brasileiro no painel da OMC [Organização
Mundial do Coméaio] contra as exportações subsidiadas européias e é uma grande
no(tia para o Brasil’ disse a porta-voz de comércio da 1ff, Arancha Conza lez
“Quem se beneficiará dessa redução de exportações
subsidiadas é o Brasil”, concordou Gregor Kreuzhuber, porta-voz agrícola do
bloco.
O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, admitiu que ainda
não havia analisado profundamente a proposta européia, mas reagiu a ela com
prudência. “Em geral, redução de apoio resulta em melhoria dos preços
internacionais. Mas é preciso ver como se faz isso sem afetar muito os países
mais pobres”. Retomando de urna reunião de países pobres nas llhas Mauricio,
Amorim afirmou que o Brasil não mudará sua estratégia na disputa
5)
Redução das exportações subvencionadas em 2 milhões de toneladas — de 2,4 milhões para 400 mil toneladas — em quatro anos
6)
‘Jovo pagamento aos
produtores de
beterraba sacarina, para compensar 60% das perdas de seus rendimento
7) As refinarias que vão desaparecer tem duas alternativas
a) Vender suas cotas de produção pai-a outros operadores europeus
•b) Vender a cota para a prdpria (JE, que
pagará sob o ‘regime de conversão’ € 250 por tonelada para as refinarias que
mudarem de setor
contra a
liTina OMC. “Nossa briga é contra subsídios a exportação de açúcar, não sobre
mercado interno. Não queremos que fo
regime de
açúcar europeul sirva de pretexto
para subsidiar açúcar de pior qualidade
que toma mercado do brasileiroj”,
disse ele
ao Valor.
Para o comissário agrícola da UE, Franz Fischler, a reforma proposta não terá
impacto nas negociações comerciais UE-Mercosul, outro tema de fundamental
importância para o Brasil. Ele lembrou que a atual oferta européia ao bloco
indiretamente inclui açúcar, com a cota para etanol (1 bilhão de litros/ano), e
não passará disso.
A Comissão
Européia quer implementara reforma em julho de
2005,
se
o projeto passar pelo cm> dos
Estados-membros e do Parlamento. Fiscbler propõe reduzir emum terço o preço
garantido para o açúcar branco, que cairia para 421 portonelada em200S, ante os
atuais€ 632, mais que o triplo do preço mundial. A Comissão pretende, também,
cortara cota de produção anual de 17,4 milhões para 14,6 milhões de toneladas.
As exportações subvencionadas serão reduzidas ainda mais, das atuais 2,4
milhões para 400 mil toneladas, abrindo espaço para produções reconhecidamente
eficientes de países como o Brasil.
Na UE, os países mais atingidos pela reforma serão França e Alemanha,
responsáveis pela metade da produção anual do bloco, de 20 milhões de toneladas
de açúcar por ano. Preparada para a revolta que o projeto provocará, a Comissão
prevê para os europeus um pacote de compensação de € 895 milhões para os dois
primeiros anos. A ajuda passará a € 1,34 bilhão nos dois anos seguintes. Esse
dinheiro cobrirá 60% da perda de renda dos agricultores que deixarem o setor.
Refinarias que decidirem fechar suas portas receberão € 250 por tonelada
que produziam, como ajuda para suas reconversões.
Quanto aos países da Africa, Ca rib
e Pacifico (ACP) eâíndia, cujas exportações são
beneficiadas pelo atual regime de preços garantidos da UE, Bruxelas anunciou
“programas especiais” para ajudá-los a serem competitivos. Neste caso, não
haverá compensação financeira.
O novo projeto desmontará o regime atual, pelo qual os produtores europeus de
açúcar se sentem encorajados a produzir o máximo, porque se não venderem no
mercado doméstico podem exportar a preços baixos, graças a subsídios que
compensam a diferença entre o preço interno e a cotação internacional (três vezes
menor),
Este ano, a UE prevê subsídios de € 1,7 bilhão para a indústria do açúcar, dos
quais 75% são para baratear exportações, distorcendo o mercado internacional.
Brasil, Austrália e Tailândia contestam esse regime na OMC, e a decisão
preliminar pode sair até o fim deste mês (ver abaixo). Para fontes daUE,
a queixa brasileira na OMC reforçou a reforma. Mas o que pesou mesmo éo custo
do subsídio para consumidores e contribuintes.
Além disso, o projeto tenta desdejá adaptara Europa ao cenário de 2008, quando
os 49 países mais pobres do planeta poderão exportar açúcar sem pagar tarifa
para a Europa. Bruxelas já limitou esse aumento de importação a 500 mil
toneladas. Na indústrias,
o argumento é que, na prática, esses paises aumentarão os embarques para a IJE,
enquanto o Brasil exportará para aqueles países.
Em todo caso, diz Jean-Louis Borjol, diretor do Comitê Europeu de Fabricantes
de Açúcar, o Brasil não poderá entrar diretamente na UE. Atualmente, o país tem
urna cota de 24 mil toneladas. Acima desse volume, Bruxelas aplica taxa de €
419 por tonelada, além de uma cláusula de salvaguarda para prevenir eventuais
importações originárias do Brasil. “Vamos fazer o que pudermos para impedir
importações vindas do Brasil”, disse.
Enquanto Fischler explicava o projeto, os primeiros protestos ocorriam em
Bruxelas, E produtores da Espanha, Portugal, França, Grécia e Irlanda diziam
que vão modificar a reforma. Também a Süedzucker, maior indústria de açúcar do
mundo, não gostou. “O negócio da produção de açúcar es tará morto amanhã se os
ministro europeus aprovarem essa refor ma”, disse à imprensa européia sei.
presidente, Hans-Joerg Gebhard.
Um estudo da Menil Lynch também citado na imprensa, previ que a reforma
européia do açúca poderá reduziros lucros de industrias como Suedzucker, Tate
& Lile e Danisco dm até 30%.
Fonte: Jornal o Valor.