Momento é de intensas mudanças.
Melhor para o Brasil!

Produção de carne bovina em alta, liderança nas exportações, investimento em sanidade, genética, alimentação e marketing. Nunca a pecuária brasileira esteve em momento tão favorável. Nem mesmo o foco de aftosa no Pará tira o ânimo do ministro Roberto Rodrigues.

A pecuária nunca ganhou tanto destaque. E não é para menos. Após se tornar líder mundial em exportações de carne bovina no ano passado, o País assume, agora, postura mais agressiva para se consolidar no mercado externo. Nem mesmo o foco de febre aftosa que surgiu no Pará, em junho, deverá atrapalhar significativamente as exportações e a produção de carne esse ano. Porém, para o Brasil atender a demanda externa é preciso investir no aumento da produtividade e ter bom plano de marketing para vender lá fora. E isso está sendo feito sob o comando do Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, que concedeu entrevista à Revista do Megaleilão 2004.

Megaleilão: Ministro, o Brasil levou um grande susto recen-temente com o foco de febre aftosa no Pará e a suspensão de embarques para Rússia, Argentina e outros países. O que, de fato, causou toda essa correria?

Roberto Rodrigues: Primeira-mente, esta questão prova que o País não está imune à febre aftosa, mesmo com o produtor aderindo cada vez mais às campanhas de vacinação. É preciso, agora mais que nunca, reforçar os trabalhos de prevenção à doença. O que aconteceu com a Rússia, especificamente, foi uma falha de comunicação, já que cumprimos todas as determinações da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), de informar ao organismo, em 24 horas, a existência de um foco de aftosa. A Argentina pediu mais explicações e decidiu suspender as compras
até tê-las.

Megaleilão: Mesmo diante da ocorrência da aftosa no Pará, após quase três anos sem a doença, nossa pecuária passa por um excelente momento. O que
explica isso?

Roberto Rodrigues: Realmente, a pecuária brasileira vive um momento excepcional. Sinônimo de qualidade e sanidade também. A carne bovina nacional amplia cada vez mais sua participação no mercado internacional. O consumo interno também cresce ano após ano. A expansão dos negócios da cadeia produtiva representa não apenas aumento do ingresso de divisas no País mas também garantia de renda aos empreen-dedores rurais. É, sobretudo, estímulo à geração de empregos e ao cumprimento de metas sociais
do governo.

Megaleilão: O senhor tem idéia do quanto isso pode gerar em divisas
ao País?

Roberto Rodrigues: A previsão para este ano é de que as vendas externas tenham aumento de até 15%. Nossas projeções indicam que o Brasil deverá exportar cerca de 1,5 milhão de toneladas, obtendo receita de US$ 2 bilhões. Assumi-mos a dianteira mundial nas exportações de carne bovina e, se tudo correr dentro do planejado, seguiremos como líderes nos próximos anos.

Megaleilão: Mas o caminho não está sendo fácil...

Roberto Rodrigues: Nem poderia ser diferente. O Brasil assume papel principal nesse cenário. Assim, é de se esperar forte pressão dos nossos competidores. Veja o caso da China com a soja e mesmo da Rússia com a carne bovina. O que não se pode negar é que somos imbatíveis em produção. Nosso custo por hectare é menor. Além disso, a qualidade da carne brasileira está melhorando e muito. Eu também estaria preocupado se tivesse de concorrer com o Brasil.

Megaleilão: O que fez a cadeia produtiva da carne bovina dar esse salto
tão significativo nesses últimos anos no mercado internacional?

Roberto Rodrigues: O desempenho da pecuária brasileira no mercado internacional é fruto da atuação conjunta da União com os governos estaduais e o setor privado. Graças a essa parceria, conseguimos intensificar o Programa Nacional de Erradicação de Febre Aftosa. Hoje, mais de 90% das 183 milhões de cabeças do rebanho bovino do Brasil estão em zonas livres da doença com vacinação. O foco no Pará, repito, foi um descuido, mas foi nada trágico. Também fomos classificados pela União Européia como área de risco "desprezível" para o mal da "vaca louca". Tudo isso pesa a nosso favor e acaba gerando um movimento positivo. E volto a falar na melhoria da produção e dos seus indicadores. Convoco os pecuaristas brasileiros a perseguirem a pecuária moderna, de resultados comprovados e criação a pasto.

MegaLeilão: Por falar em “vaca louca”, os últimos meses não têm sido muito positivos para um dos nossos concorrentes, os Estados Unidos. No final do ano passado, a confirmação do primeiro caso da doença; recentemente, novas suspeitas. Qual o reflexo para o Brasil? Quais são nossos desafios?

Roberto Rodrigues: A ocorrência de um caso do mal da "vaca louca" nos Estados Unidos nos abre diversas oportunidades ao mesmo tempo em que nos impõe vários desafios. Donos do maior rebanho comercial do mundo, é natural que queiramos avançar em novas posições, mas é preciso cautela e extremo cuidado com a defesa sanitária. Isso é fundamental e exige parceria ainda mais forte entre governo e setor privado.

Megaleilão: Nesse momento tão bom para a pecuária, é inevitável que se fale em exportações, novos mercados etc. Mas, como fica o mercado interno? Afinal de contas, são 170 milhões de consumidores.

Roberto Rodrigues: Perfeito. Temos de zelar pelo abastecimento interno. Afinal, somos, dezenas de milhões de consumidores exigentes em termos de sanidade e apreciadores da qualidade. É aqui que ficam 80% de nossa produção. O maior mercado para nossa carne bovina é o próprio Brasil. Assim, precisamos buscar cada vez mais a inserção de todos em projetos sociais para garantir acesso à carne aqui produzida.

Megaleilão: O senhor falou em melhoria dos indicadores econômicos...

Roberto Rodrigues: Participei este ano de várias exposições agropecuárias, com lideranças e produtores que investem na atividade profissionalmente. Sempre faço questão de ressaltar o extremo potencial da produção de carne bovina no País. Podemos dobrar a área atualmente ocupada pelo gado sem derrubar nenhuma árvore. Isso é altamente positivo para projetar a pecuária nos próximos anos em termos de volume de produção. Mas não se pode esquecer que o mercado é cada vez mais exigente em termos de qualidade. Temos todas as condições de avançar. E isso depende de cada um dos pecuaristas que está lendo
esta entrevista.

Megaleilão: Então vale a pena investir na pecuária ?

Roberto Rodrigues: A pecuária é a maior atividade primária do Brasil. Cerca de 80% das mais de 5 milhões de propriedades rurais do País têm gado. Estamos falando de um negócio de US$ 25 bilhões por ano, somente dentro da porteira. Está aí uma atividade que merece, sim, toda a nossa atenção e investimentos. O resultado das exportações mostra com clareza o potencial da carne brasileira. Mas é importante ressaltar que é preciso ser profissional. O consumidor brasileiro quer carne de qualidade; o importador exige produtos de padrão superior.

Fonte: Jornal O Valor.